A recuperação do euro é pra valer?

Após atingir seu nível mais baixo ante o dólar desde 2003 durante o primeiro turno das eleições francesas, em abril, a moeda europeia tem mostrado sinais de recuperação. Agentes financeiros questionam, no entanto, se essa tendência é duradoura. Conheça as possíveis respostas para essa pergunta.

A cotação do euro ante o dólar recebeu o impulso inicial para sair do buraco com a vitória de Emmanuel Macron sobre Marine Le Pen –candidata que defendia a saída da França da União Europeia. Em seguida, o movimento foi fortalecido pelo desempenho melhor que o esperado do partido da Chanceler Angela Merkel nas eleições regionais alemãs em maio, visto como bom presságio para as eleições nacionais, previstas para novembro. E apesar das eleições legislativas francesas neste mês, em que Macron pode não receber o apoio necessário para implementar sua ambiciosa agenda política, a cotação da moeda ante o dólar já subiu 12% desde abril e encontra-se agora no patamar mais alto desde novembro de 2016. Isso porque há poucas chances de que os resultados dessas eleições influenciem, de alguma forma, a permanência da França na União Europeia.

Conforme se observa no gráfico abaixo, o salto na cotação do euro após as eleições presidenciais francesas foi significativo, mas a moeda ainda continua em um patamar bem abaixo da média da última década, sugerindo um potencial de alta bastante significativo. 

Superávit europeu cria cenário benéfico

É importante frisar que a desvalorização real da moeda comum europeia na última década significa, a princípio, um impulso competitivo para a região, o que se comprova com os atuais saldos positivos das transações correntes da Zona do Euro.

Conforme indicado no gráfico abaixo, o superávit europeu hoje em dia é significativamente maior do que o do Japão e, principalmente, o da China. Na região (e no mundo) quem tem o maior superávit de conta corrente (em dólares) é a Alemanha. Inclusive, recentemente o Fundo Monetário Internacional (FMI) citou esse superávit e a saudável situação fiscal alemã para exigir que o país tome providências adicionais para estimular a demanda.

Diante do baixo valor da moeda europeia e das perspectivas de um crescimento mais forte na região as chances de o euro continuar se valorizando são grandes.  

Economia global: mais um fator positivo

 A cotação do cobre é um tradicional indicador das condições econômicas globais – a demanda por esse metal é sensível à temperatura da atividade global – e, consequentemente, do sentimento de risco no mundo. Como o dólar geralmente é negociado de forma inversamente proporcional ao sentimento, a cotação do euro em relação ao dólar costuma acompanhar a oscilação do cobre. Conforme pode-se ver no gráfico abaixo, o preço do cobre, após ter tocado as mínimas em 2016, se recuperou no quarto trimestre e estabilizou em um patamar relativamente elevado. Isso significa que a atividade econômica global está mais aquecida e é mais um indicador de que o euro deve continuar se valorizando, pelo menos até alcançar 1,20 dólar.

Spread bancário aponta na direção oposta

Um dos principais condutores do valor do euro ante o dólar tem sido o spread bancário nas taxas de depósito de 2 anos das moedas. O prazo de dois anos é importante pois representa um bom indicador das expectativas em relação à política de longo prazo do banco central. Mas o spread bancário tem liderado a tendência de baixa da moeda europeia ante o dólar desde a crise financeira de 2008. E, antes das eleições presidenciais francesas, em abril, as preocupações com o euro fizeram com que diminuísse ainda mais, paralelamente à cotação do euro. Atualmente, o spread está ainda menor, defasado em relação à trajetória ascendente do euro.

É preciso destacar, entretanto, que já houve épocas em que a cotação da moeda europeia não seguiu a tendência da taxa de spread bancário. Foram períodos curtos, porém significativos. Portanto, não se pode descartar que o euro chegue ao patamar de 1,20 dólar analisando apenas a tendência da taxa de spread. É preciso levar em conta também os dados anteriormente mencionados.

A questão da dívida pública

Embora as eleições presidenciais francesas tenham gerado preocupações com a viabilidade da União Europeia –e do euro—, tiveram um impacto relativamente pequeno sobre as expectativas de risco da dívida grega. Na verdade, os Credit Default Swaps (CDS) de 5 anos (CDS) da dívida pública grega começaram a diminuir no início de março e não foram afetadas significativamente pelas eleições. A taxa de spread respondeu de forma positiva ao anúncio de 1º de maio de que a Grécia teria chegado a um acordo com os credores para rolar a dívida 7 bilhões de euros com vencimento em julho e no momento está no patamar mais baixo desde o início da crise de dívida grega.

Mas, como nos acordos passados, a renegociação da dívida baseia-se na disposição da Grécia de reduzir ainda mais os gastos do governo, processo que –conforme se nota no gráfico abaixo—, trouxe apenas sofrimento ao país. Apesar dos cortes draconianos nos gastos, a proporção da dívida pública grega em relação ao PIB chega a ser maior agora do que quando a crise começou. E não há motivos para acreditar que o atual acordo será mais bem sucedido na tarefa de reduzir o peso dessa dívida. E o pior é que, mesmo com as baixíssimas taxas de juros e melhoria das condições econômicas na Europa, Portugal e Itália seguem no mesmo caminho. Os já elevados índices de dívida pública desses dois países não páram de crescer.

A agressiva compra de títulos pelo Banco Central Europeu (BCE) aliada ao quantitative easing (QE) tem sido fundamental para manter a estabilidade nos mercados europeus de títulos. Mas a queda acentuada da atividade econômica na região ou o fim do QE provavelmente reacenderiam as preocupações sobre o potencial de inadimplência da Grécia –além de Portugal e Itália—, o que prejudicaria bastante a recuperação do euro.

O Brexit influencia a cotação do euro?

Aparentemente não! O Reino Unido já começou a negociar sua saída do Mercado Comum Europeu –processo que deverá durar dois anos--, mas, conforme se observa no gráfico abaixo, o índice de volatilidade implícita de 2 anos do euro ante a libra esterlina é um dos menores da década. Isso obviamente sugere que o mercado não está preocupado com o efeito do Brexit nas taxas de câmbio. 

Mas e o efeito Trump?

O potencial de alta da moeda europeia está intimamente ligado ao sentimento positivo dos investidores globais –e os mercados de ações, obviamente, funcionam como termômetro desse sentimento. Mercados em baixa, portanto, não ajudariam em nada a valorização do euro.

Mas a desaceleração dos mercados em meados de maio foi motivada especificamente pelas preocupações acerca do conturbado governo de Donald Trump. O rali visto logo após a eleição do presidente americano estava relacionado a fortes expectativas de que a nova administração implantaria medidas econômicas favoráveis ao mercado, como cortes nos impostos setoriais e alteração dos regulamentos bancários. As chances de essas políticas serem implantadas, no entanto, parecem diminuir a cada dia diante dos contratempos políticos que Trump tem enfrentado. O fator Trump, sem dúvida, não representa um indicador muito positivo em relação às perspectivas de curto prazo para o euro.

 

Prognóstico final

De todos os fatores expostos acima, a cotação do cobre provavelmente é o guia mais confiável na hora de avaliar o prognóstico de valorização do euro. Já as eleições legislativas francesas, que ocorrem em 11 e 18 de junho, não deverão ter grande influência sobre a cotação da moeda. Se o partido de Emmanuel Macron, La République En Marche!, obtiver um bom desempenho nas urnas, será apenas um impulso extra.

De qualquer forma, mesmo que as condições permaneçam favoráveis à recuperação da moeda europeia, a sua cotação não deve exceder o 1,20 dólar. No longo prazo, entretanto, economistas concordam que as perspectivas para o euro serão negativas até que se chegue a um acordo para reduzir de forma significativa o peso da dívida de países como Grécia, Portugal e Itália. 

 

 

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