Angela Maria dos Santos

Foreign Trade Content Specialist

Thomson Reuters - Brasil

 

Continuando a série de análises sobre o que de fato aconteceu no ano de 2018, neste artigo vamos discorrer sobre os Impactos Globais, especificamente em relação ao posicionamento dos EUA em 2018 frente à renovação do acordo NAFTA com Canadá e México, bem como o início de uma possível  “guerra comercial” com a China.

O NAFTA (Acordo de livre comércio da América do Norte) assinado em 1994 entre EUA, México e Canadá era considerado pelos EUA o pior acordo comercial existente e que provocava diversos prejuízos e a perda de milhões de empregos por conta da sua forma de aplicabilidade para temas sensíveis alguns como: regime de origem; salários; cláusula de validade; laticínios etc. Diante desse cenário e a resistência dos EUA em manter esse acordo, em 2017 foram iniciadas as negociações para sua revisão, e os temas tidos como sensíveis foram arduamente debatidos, essencialmente pelos EUA que a todo custo buscaram alinhá-los aos seus interesses e como consequência estabelecer um novo modelo para os futuros acordos comerciais.

Durante as negociações haviam possibilidades reais para a conclusão de um acordo bilateral entre EUA e México e até entre EUA e Canadá, porém o acordo foi renovado entre as partes e o então NAFTA foi substituído pela sigla USMCA.  

O USMCA, apesar de mais restritivo, foi considerado mais justo e competitivo do que era o NAFTA, inclusive em relação a concorrência com o resto do mundo. O acordo é visto de forma positiva pelos cidadãos das partes envolvidas, onde vivem quase 500 milhões de pessoas e que movimenta um trilhão de dólares por ano em comércio. É possível ter ideia das substanciais mudanças entre o antigo (NAFTA) e o novo (USMCA) quando o regime de origem passou a exigir percentual obrigatório de produção regional de  62,5% para 75%, com  aplicação gradual. Destarte, também faz parte do acordo a transferência de parte da produção do México para os EUA e Canadá, sendo estabelecido que uma parte da produção deve vir de fábricas que pagam ao menos US$ 16/hora aos funcionários. Outra alteração significativa é que o NAFTA vigorava por tempo indeterminado, enquanto o USMCA terá validade de 16 anos.

Dentre outros temas que foram alinhados na revisão e renovação do acordo, destaca-se um ponto relacionado ao setor de latícinio, que os EUA interpretavam como injusta a proteção dada aos produtores canadenses de leite e queijos, por meio do NAFTA, todavia com o USMCA o Canadá amplia o acesso dos EUA seguindo a sistemática que foi aplicada ao acordo com os 12 países membros do Transpacífico (TPP) e, no tocante ao setor automobilístico,os EUA conseguiram preservar o direito de aplicar tarifa emergencial de até 25% por razões de segurança nacional, em contrapartida o USMCA também definiu isenções limitadas para Canadá e México, o que reduziu a possibilidade do setor automotivo ser afetado nesses países.

Em relação à guerra comercial com a China, o estopim deu-se quando os EUA colocaram em prática sua política de fortalecimento de sua indústria em detrimento aos produtos importados, sendo certo que a tensão começou quando implementaram o aumento  da alíquota do imposto de importação de aço para 25% e, 10% para o alumínio. A China se sentiu ameaçada e iniciou a retaliação, deixando de comprar dos EUA. Em sua defesa, os EUA alegam que a China lança mão de práticas desleais, como usar hackers para roubar propriedade intelectual e segredos comerciais das empresas americanas.

Em resumo, ao longo de anos a China desfruta da enorme abertura comercial praticada pelos EUA, o que se agravou ainda mais com a questão de obtenção ilegítima de pripriedade intelectual americana por parte dos chineses. Com isso, a China ocupou um espaço que tornou desequilibrada a relação comercial entre os dois países. Medidas de equalização de distorções comerciais que poderiam ter sido tomadas de forma gradual no passado não foram, e isso acabou por culminar com medidas extremas adotadas pelo Governo Trump.”(artigo “Não há uma tendência protecionista criada pelos USA de André Cruz – Gerente de Acordos Internacionais da Thomson Reuters)      

O Brasil em meio a essa guerra tirou algumas vantagens, como o aumento na exportação de commodities para a China, em especial soja e barris de petróleo. Contudo, a longo prazo essa guerra não é benéfica nem se quer para o Brasil, uma vez que  uma guerra comercial entre duas potências como essas pode resultar em uma escalada de tarifas, um aumento nos custos das exportações que, consequentemente, faz com que o comércio internacional se retraia, culminando em um movimento de “profunda recessão” mundial.

O cenário atual que podemos observar, indica que os dois gigantes propuseram-se a uma trégua na guerra comercial de 90 dias, a partir de 1º de dezembro de 2018, quando os EUA suspenderam o aumento, de 10% para 25%, nas taxas alfandegárias sobre 200.000 milhões de dólares (175.000 milhões de euros) de bens chineses e, em contrapartida, a China baixou as taxas alfandegárias sobre veículos importados dos EUA e recomeçou a comprar soja do país.

As conversas que vem acontecendo tem o intuito de estabelecer um profundo intercâmbio de opiniões entre as partes para que se encontre um equilíbrio comercial, resolva-se a questão da proteção de propriedade intelectual, sendo certo que as expectativas para um possível acordo são positivas. Ambos são enfáticos nos seus desejos comerciais e o comércio mundial espera o fim dessa guerra que, como dito anteriormente, pode até beneficiar alguns países em dado momento, mas a longo prazo os efeitos são negativos pois desaceleram o crescimento mundial.

 

 

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