Escritórios de advocacia que atendem grandes empresas lidam com um volume de documentos que cresce junto com a carteira de clientes. Contratos, matrículas, processos volumosos: cada documento tem estrutura própria, exige atenção total e, na maioria das vezes, não tem atalho. E com o Luchesi Advogados não foi diferente.
Atuando há mais de 30 anos no mercado, nas áreas consultiva e contenciosa, com especialização em privacidade e proteção de dados, o escritório atende grandes empresas. Com esse fluxo intenso, era de se esperar horas e horas de trabalho manual.
Contudo, Ellen Carolina Silva, sócia responsável pela área de imobiliário, liderou um projeto que mudou a rotina do escritório: a adoção de, não só uma IA generativa, mas uma IA especializada no setor jurídico
O caso mais representativo era a análise de matrículas imobiliárias. Cada documento chega ao escritório em formatos diferentes. No Luchesi Advogados, esse volume passou de mil matrículas por mês.
No contencioso, o problema se repetia em outra frente. Processos judiciais com centenas ou milhares de páginas, onde só a leitura inicial de uma recuperação judicial para entender o histórico do caso podia tomar um dia inteiro de trabalho de um advogado.
Foi diante desse cenário que o CoCounsel entrou na avaliação do escritório. Muito mais do que apenas uma tendência de mercado, como resposta a um problema concreto de escala.
IA generativa no setor jurídico: o que os dados mostram
O movimento do Luchesi Advogados é parte de uma mudança mais ampla no setor. O relatório AI in Professional Services 2026, do Thomson Reuters Institute, mostra que 4 em cada 10 organizações já usam IA generativa, quase o dobro dos 22% registrados no ano anterior. Entre os que adotaram a tecnologia, mais de 80% a usam ao menos semanalmente, e mais da metade a usa todos os dias.
As ferramentas especializadas para o setor jurídico cresceram 14 pontos percentuais em adoção no último ano, e outros 42% dos profissionais afirmam que planejam ou estão avaliando adotá-las.
Ainda assim, apenas 18% das organizações medem o retorno sobre o investimento em IA de forma sistemática, e quando medem, as métricas costumam ser internas, como economia de custo ou volume de uso, não métricas orientadas ao cliente. No Luchesi Advogados, a régua foi outra: o que mudou na entrega para o cliente.
O volume de matrículas que tornou a IA generativa necessária
Para entender o resultado, é preciso entender o problema. Quem trabalha com esse tipo de documento sabe que dificilmente você encontra duas matrículas imobiliárias iguais.
Cada uma tem estrutura própria, histórico específico e peculiaridades que variam por região. Algumas chegam fotografadas, outras escritas à mão. Analisar uma matrícula exige atenção total e tempo.
Com mais de mil documentos por mês, esse trabalho operacional ocupava uma parte considerável da capacidade da equipe. Horas que poderiam ser dedicadas à análise jurídica ficavam presas na leitura e organização de dados dispersos.
Segurança da informação como critério principal de escolha
Com o problema definido, o escritório começou a avaliar soluções. O primeiro critério não foi o que a ferramenta fazia. Foi como ela tratava os dados.
O Luchesi Advogados atua para grandes empresas, lida com informações estratégicas e está sujeito às políticas de confidencialidade dos seus clientes. Adotar uma IA de ambiente aberto estava fora de cogitação.
A equipe testou diversas soluções. A escolha pelo CoCounsel, da Thomson Reuters, veio depois de avaliar três critérios: segurança da informação, governança dos dados e previsibilidade das respostas.
O CoCounsel funciona em ambiente corporativo fechado, trabalha exclusivamente com os documentos submetidos pelo usuário. Os dados e prompts dos usuários não são utilizados para treinar ou melhorar o CoCounsel ou os modelos de linguagem.
Os parceiros de IA da Thomson Reuters, como OpenAI e Google, são contratualmente proibidos de usar dados de clientes para treinar seus modelos. Isso elimina o risco de alucinação sobre dados confidenciais e garante que informações estratégicas dos clientes permaneçam protegidas.
Uma adoção gradual: testes, políticas e integração ao fluxo de trabalho
Com a ferramenta escolhida, o escritório montou um processo de adoção em etapas:
- Testes com um grupo pequeno;
- Validação do que funcionava;
- Desenvolvimento de políticas internas;
- E expansão gradual para o restante da equipe.
Não houve implantação em larga escala desde o início.
Ao longo dos testes, a equipe foi desenvolvendo os prompts e os fluxos que faziam sentido para cada tipo de análise. Só depois disso o CoCounsel passou a integrar o processo de trabalho de forma estruturada.
A entrada foi pela análise de matrículas. Depois, o uso se expandiu para o contencioso, especialmente na leitura inicial de processos volumosos, onde a ferramenta passou a apoiar a compreensão do histórico, a identificação de eventos processuais relevantes e a organização cronológica das informações.
O advogado continua revisando tudo. O que mudou foi em qual etapa ele atua.
Análise de matrículas imobiliárias
Mais de 1.000 documentos por mês. O CoCounsel identifica informações dispersas, estrutura os dados e alimenta outros documentos, com revisão do advogado em todas as etapas.
Leitura inicial de processos contenciosos
Recuperações judiciais com milhares de páginas. A ferramenta apoia a compreensão inicial do caso, identifica eventos relevantes e organiza as informações cronologicamente.
Suporte à elaboração de documentos
Com o aumento da familiaridade, a equipe foi expandindo o uso para contratos, garantias e outros documentos jurídicos complexos.
Mais velocidade e mais profundidade na entrega ao cliente
Com o tempo operacional reduzido, a equipe passou a chegar mais rápida e mais preparada aos pontos de análise que antes exigiam mais esforço. O SLA encurtou. A resposta ao cliente ficou mais ágil e, com mais tempo disponível, mais aprofundada.
Para o Luchesi Advogados, a métrica principal é outra: qualidade e profundidade do que chega para o cliente.
Hoje o escritório analisa um volume maior de documentos sem aumentar a carga operacional da equipe. Isso permite atender demandas mais complexas com mais profundidade e em prazo menor.
O cliente percebe o resultado na velocidade da resposta, na qualidade da análise e no nível de preparo da equipe nas reuniões.
Governança interna e uso responsável da IA generativa
A adoção de IA no Luchesi Advogados ainda está em construção, e o escritório não tem receio de dizer isso.
A primeira lição foi sobre escopo: testar em partes, não tudo de uma vez.
A segunda foi sobre governança interna: não basta a ferramenta ser segura.
O escritório precisa treinar as pessoas, definir o que pode e o que não pode ser compartilhado com a IA, e criar controles de validação claros.
A terceira foi sobre uso: há uma diferença grande entre usar IA para criar informação e usá-la para analisar informação.
No Luchesi Advogados, o CoCounsel trabalha sobre documentos concretos submetidos pela equipe, não gera conteúdo novo, não traz dados de fora, não fabrica jurisprudência. Isso reduz o perfil de risco do uso de forma significativa.
Uma estratégia em expansão, com aprendizados para outros escritórios
O CoCounsel entrou no Luchesi Advogados como resposta a um problema específico de volume. Hoje é uma etapa do processo de trabalho do escritório, presente na análise de matrículas, em expansão no contencioso, e em avaliação para novas aplicações.
O relatório AI in Professional Services 2026 da Thomson Reuters mostra que organizações com uma estratégia formal de IA têm três vezes mais chances de obter retorno positivo com a tecnologia. O Luchesi Advogados construiu essa estratégia na prática, com testes, políticas internas e treinamento contínuo.
Para escritórios que ainda estão avaliando a adoção de IA jurídica, a experiência do Luchesi Advogados mostra que é possível começar de forma controlada, com segurança e resultados concretos.