Artigo de Especialista

Estratégia de IA e gestão em tempos de mudança: o papel da tecnologia e da confiança

Em um cenário de transformações aceleradas, a gestão jurídica exige mais do que tecnologia; exige critérios sólidos de confiança e clareza de prioridades. Nesse artigo, você encontrará insights do relatório do Thomson Reuters Institute e reflexões sobre como liderar a mudança no setor.
Juliana Ono
Diretora de Operações de Conteúdo

Vivemos um momento de transformações constantes no Direito. Mudanças tecnológicas aceleradas, avanços em inteligência artificial, novos marcos regulatórios e um ambiente econômico e mundial mais instável redefinem, diariamente, a forma como escritórios e departamentos jurídicos tomam decisões e estruturam suas estratégias.

Os números confirmam essa aceleração.

2026 AI in Professional Services Report do Thomson Reuters Institute revela que os profissionais jurídicos se tornaram crescentemente otimistas com a IA generativa — com a taxa de adoção praticamente dobrando em um único ano: 41% das organizações jurídicas já utilizam a tecnologia ativamente, contra 26% no ano anterior.

Hoje, 62% dos profissionais jurídicos acreditam que a IA deve ser aplicada ao seu trabalho. Embora a hesitação persista em 23% dos casos, o sentimento de esperança (31%) e entusiasmo (21%) domina a percepção sobre o futuro tecnológico

Nesse contexto, a gestão estratégica deixa de ser um exercício estático e passa a exigir leitura contínua do ambiente, capacidade de adaptação e clareza de prioridades. Ser estratégico hoje significa entender o cenário em movimento, antecipar impactos e tomar decisões com base em informação qualificada — não apenas reagir às mudanças quando elas já estão postas.

E a urgência por estratégia é crescente. O Future of Professionals da Thomson Reuters revela uma divisão clara dentro da profissão jurídica: quando se trata de colher os benefícios da IA, organizações com estratégia de IA superam dramaticamente aquelas que não as têm, criando uma divisão competitiva cada vez mais acentuada. 

A inteligência artificial tem um papel central nesse processo. Mais do que eficiência operacional, a IA amplia a capacidade analítica do advogado: permite comparar cenários, identificar padrões, acompanhar mudanças regulatórias e transformar grandes volumes de informação em insights acionáveis. Quando bem utilizada, ela libera tempo para o que realmente gera valor: análise crítica, estratégia e relacionamento com o cliente. 

Os dados reforçam esse potencial transformador. As principais aplicações relatadas pelos profissionais jurídicos são pesquisa jurídica (80%), revisão de documentos (74%) e sumarização de documentos (73%). Estima-se que o uso da IA poupará, em média, 5 horas semanais por profissional neste ano — acima das 4 horas previstas em 2024 —, o que representa um valor anual médio de US$ 19.000 por profissional. Para o mercado norte-americano, as economias de tempo se traduzem em um impacto cumulativo anual estimado de US$ 20 bilhões para o setor jurídico.

Mas, em um ambiente cada vez mais automatizado, a confiança torna-se um ativo estratégico. A tomada de decisão só é sólida quando se apoia em informações precisas, atualizadas e confiáveis. Dados imprecisos, fontes duvidosas ou análises superficiais aumentam riscos e comprometem a estratégia — especialmente em um cenário regulatório complexo e em constante evolução.

Essa percepção está no centro das discussões sobre o futuro da IA no setor. 

Não por acaso, as preocupações com riscos desempenham papel central na adoção ainda cautelosa por parte de profissionais jurídicos e tributários, concentrando-se em quatro categorias principais: privacidade, confidencialidade, segurança de dados e acurácia.

Para advogados e líderes jurídicos, o desafio é claro: combinar tecnologia, inteligência humana e confiança na informação. Há um evidente "gap de implementação". Enquanto 80% dos profissionais de escritórios jurídicos acreditam que a IA vai transformar ou ter alto impacto em seu trabalho, apenas 29% esperam altos níveis de mudança em sua firma. Essa desconexão significa, em outras palavras, que o acesso à tecnologia mais recente não gera valor automaticamente. 

O relatório também identifica lacunas de competências relevantes, 46% dos profissionais reportam gaps em suas organizações, sendo que 31% apontam deficiências em habilidades de tecnologia e dados. Estratégia, hoje, não é apenas escolher o caminho certo, mas garantir que as decisões sejam tomadas com base em conhecimento sólido, visão de longo prazo e capacidade de adaptação contínua.

Em um ambiente dinâmico, vence quem transforma mudança em vantagem competitiva. "Organizações com estratégias claras e alinhadas estão desbloqueando ROI real: recuperando tempo, reduzindo custos e ganhando terreno. Profissionais que adotam a IA não são apenas mais produtivos — eles estão se mantendo relevantes", resume Steve Hasker, CEO da Thomson Reuters.