O desfecho da Operação Carne Fraca para o Brasil

Autor: Angela Maria dos Santos
Consultora Sênior de Comércio Exterior
Global Trade Management

 

No começo do ano de 2017 o Brasil se deparou com a operação feita pela Polícia Federal que após dois anos de investigação descobriu uma organização criminosa que liberava produtos sem fiscalização, com prazos de validade vencidos, bem como o uso de produtos químicos para maquiar a qualidade dos produtos de origem animal, como carnes bovinas, aves e derivados.

Essa constatação caiu como uma bomba, tanto no Brasil como no mundo, uma vez que o Brasil exporta carne para mais de 150 países, desse modo, os impactos econômicos para o país poderiam ser grandes, existia previsão de termos como consequência uma balança comercial negativa, além da imagem do Brasil no cenário internacional ser abalada, principalmente com a Europa, já que estavam em andamento as negociações do acordo Mercosul/União Europeia.

Segundo dados do MAPA (Ministério da Agricultura e Agropecuária), os principais compradores das carnes brasileiras, no ano de 2016, foram Hong Kong, Egito, China e Egito, quando o Brasil exportou mais de 1 milhão de toneladas de carne bovina. As exportações da carne de frango representaram mais da metade do montante exportado do setor em 2016. Arábia Saudita, China, Japão e os Emirados Árabes importaram do Brasil mais de US$ 3 bilhões no período.

Na época da descoberta foi feita uma comparação e em números, caso o Brasil tivesse suas exportações proibidas ou suspensas, principalmente pela Europa e China, deixaria de exportar US$5,42bi, mais de 30% do total exportado.

Com a deflagração da operação carne fraca, grandes exportadoras foram alvo de investigação e inspeções pesadas em seus estabelecimentos o que trouxe impactos imediatos perante seus principais clientes externos que aumentaram seus monitoramentos na entrada em seus países das carnes, frangos e derivados brasileiros, como foi o caso da União Europeia e a suspensão por parte dos EUA, que apesar de não ser um grande exportador tem uma influência significativa ante aos outros países, isso piorou a imagem do Brasil trazendo também a suspensão de importação de carne por parte da China, uma das principais exportadoras, que em 2016 exportou 1,75 bilhão de dólares.

Após 10 dias da divulgação, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) informou uma queda de 19% da exportação de carnes pelo Brasil, que caiu de US$ 62,2 milhões, até a semana da Operação Carne Fraca, para US$ 50,5 milhões.

Diante do caos o governo brasileiro e associações envolvidas, como a Associação Brasileira das Indústrias exportadoras de Carnes (Abiec), não mediram esforços para reverter essa situação e restabelecer a credibilidade das carnes brasileira em seus mercados já conquistados.

Para isso houve muito empenho, como interdição de estabelecimentos, suspensão de licenças de exportação, reforço no sistema de vigilância que até então tinha credibilidade e aprovação por inspeções internacionais. A União Europeia foi uma dos que mais pressionou o Brasil pedindo oficialmente informações sobre a operação, uma vez que tal divulgação poderia comprometer ou até regredir as negociações do Acordo entre Mercosul e UE.

E todo esforço e empenho valeram a pena e já em julho os números das exportações começaram a se recuperar, as exportações progrediram em 31%, em valores para 540 milhões de dólares, sendo China e Hong Kong os maiores importadores, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

Os números continuam a subir em agosto 2017 o aumento foi de 34% nas exportações de carne bovina em relação ao mesmo período de 2016, o que representou em toneladas um aumento de 108,6 milhões em 2016 para 145,8 milhões em 2017, segundo a Associação Brasileira de Frigorífico (Abrafrigo). E as exportações de carne de frango também tiveram um avanço ante a 2016 e atingiram 416,8 mil toneladas em agosto, resultado que supera em 14,6% o volume embarcado no mesmo período do ano passado, informou Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Em setembro, os números foram parecidos com as exportações de 2016, tanto de carne bovina como de frango, conforme dados divulgado pelo MDIC, em faturamento as exportações de carne somaram US$ 568,6 milhões e de frango US$ 1.600,60 a tonelada.

E a novidade foi a retomada em outubro de 2017 das exportações brasileiras de carne bovina para os Estados Unidos, suspensas desde junho, teve início com as exportações de carne termoprocessada de cinco frigoríficos que haviam sido embargados devido a problemas como o rompimento de embalagens. Em breve os EUA irão liberar a carne in natura, depois que os americanos avaliarem documento enviado pelas autoridades brasileiras

E não sendo diferente em outubro a exportação de carne de frango teve um aumento de 16,2%, em valores, os embarques aumentaram em 24,6%, para 634,4 milhões de dólares, em comparação a outubro de 2016. A China continua disparada na importação de carne bovina brasileira que cresceu 16,5% no acumulado do ano até outubro, para 449,18 mil toneladas, e já representam 37,5% do total embarcado pelo país no período, dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Mesmo com a retomada positiva das exportações de carne, frango e derivados após toda a polêmica em torno da operação Carne Fraca, o Brasil crescerá menos que o esperado, ficando com um aumento de 10% em comparação a 2016, a expectativa era um aumento de 20%, conforme divulgado pela consultoria Agroconsult.

A DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) em abril desse ano divulgou uma Nota Técnica com os possíveis impactos da operação Carne Fraca sobre o setor pecuário e os empregos. (https://www.dieese.org.br/notatecnica/2017/notaTec176CarneFraca.pdf). Abaixo alguns gráficos que demostram a produção e exportação de alguns produtos, entre ele as carnes, frangos e seus derivados.

O complexo de carnes representou 6,8% do total das exportações brasileiras entre março de 2016 a fevereiro de 2017, o que equivale a aproximadamente US$ FOB 13,0 bilhões.

Somente a pecuária bovina deve adicionar um valor novo de R$ 72,4 bilhões ao PIB do país em 2017. E a crise da carne pode vir a redimensionar tal valor (Gráfico 5).

A carne de frango é a mais exportada, entre todas, concentrando quase metade do valor exportado entre março de 2016 e fevereiro de 2017, seguida pela carne bovina e, por último, pela carne suína (Gráfico 6).
Quanto aos mercados aos quais se destinam os produtos brasileiros, há uma concentração em torno de China, Hong Kong (região administrativa vinculada à China), Arábia Saudita, Rússia e Japão, com 51,2% do total no período de março de 2016 a fevereiro de 2017. No geral, os países considerados “em desenvolvimento” são os principais mercados de produtos, mas também são relevantes as exportações para Holanda, Itália, Reino Unido e outros da União Europeia, que totalizavam algo próximo de 8% do total no período. Chile, Venezuela e México são os principais mercados na América Latina.
Após toda essa análise feita desde a deflagração, fica a pergunta: qual o desfecho da Operação Carne Fraca? Entendo que, cada vez mais é nítida a necessidade das empresas em parceria com o governo estarem empenhadas em apresentar compliance, ou seja, maiores controles, tecnologia avançada, sistemas integrados nos quais todas as informações fiquem amarradas, onde todos tenham acesso às mesmas informações evitando assim a burocracia, as informações truncadas que abrem brechas para que situações ilícitas sejam viáveis. E finalizo com o mais importante, o empenho de todos os envolvidos para reverter a imagem do Brasil num mercado já sólido que foi arduamente conquistado e que tal episódio não prejudicou as negociações do Acordo do Mercosul e União Europeia que estão bem avançadas e se tudo continuar ocorrendo como o esperado poderá ser assinado ainda esse ano.