Tesouraria centralizada acelera o crescimento asiático

Com as incertezas regulatórias gradualmente sendo substituídas por preocupações com os fluxos comerciais e a trajetória das principais moedas, as tesourarias corporativas buscam maior eficiência em seus modelos operacionais
Tesoureiros corporativos sempre costumaram atuar seguindo modelos descentralizados, mas desafios recentes têm obrigado muitos desses profisssionais a reavaliar suas estruturas.

Atualmente, a Ásia está tendo que lidar com bruscas alterações na taxa de câmbio e no risco político causadas pelo afrouxamento do quantitative easing pelo Federal Reserve, desaquecimento do comércio global, intensificação da regulação e das barreiras internacionais, redução da hegemonia do dólar e crescente papel do chinês RMB.

Maior economia da Ásia, a China diz que quer deixar que o mercado funcione como o principal guia de sua taxa de câmbio. “No entanto, as intervenções do governo no mercado de RMB offshore sugerem o oposto”, explica Pete Sweeney, editor do Reuters Breakingviews na Ásia.

Segundo Sweeney, o mercado CNH (offshore) é hoje menos eficiente do que antes. Isso porque incertezas regulatórias e controles cambiais fazem com que as decisões de investimento com base na China sejam mais complexas.

Carrie Lam, chief executive de Hong Kong, e o presidente chinês Xi Jinping

“Enquanto a China tentou sustentar o yuan para impedir a fuga de capitais, outras moedas asiáticas caíram em relação ao dólar”, disse Pete Sweeney aos participantes do recente Thomson Reuters Treasury Centralization Forum, em Hong Kong. Isso fez com que outros governos, como o da Malásia, também interviessem no mercado de câmbio para controlar os fluxos.

É difícil de coordenar políticas nesse ambiente. Entretanto, as consequências da eleição de Donald Trump que muitos temiam – tanto em termos de política americana quanto asiática – foram mínimas. “Por outro lado, a tecnologia tem ocasionando rápidas mudanças no gerenciamento de tesouraria”, explica Raj Melvani, diretor da área de desenvolvimento de mercado da Thomson Reuters.

Segundo Melvani, com serviços em nuvem, as tesourarias corporativas podem transferir tarefas da área de financiamento, por exemplo, dos departamentos locais para experientes equipes que atuam de forma central.

Cortejando Tesourarias

Diante do crescimento da Ásia, tanto empresas multinacionais quanto chinesas se instalaram na região. E como atuam em diversos locais—todos com moedas e regulamentos diversos, além de exigências de capital mais rigorosas e do fim do quantitative easing –, essas empresas foram levadas a instalar centros de tesouraria corporativa (corporate treasury centers, ou CTC) em um único mercado asiático.

Em meio a esse cenário, o Governo de Hong Kong tem tentado criar condições que atraiam para a cidade mais atividades de tesouraria. “Isso ajudará a fortalecer o mercado financeiro de Hong Kong e aumentará o seu status como centro internacional de finanças”, disse Sara Yip , Gerente Sênior (Desenvolvimento de Mercado) da Hong Kong Monetary Authority (HKMA).

As torres comerciais iluminam-se à noite no distrito financeiro central de Hong Kong. 

Segundo Sara Yip, à medida que a atuação internacional cresce, as multinacionais passam de estruturas descentralizadas para centralização regional e nacional, depois centros de serviços compartilhados e, por fim, chegam aos bancos internos –sempre visando aumentar a eficiência.

Ela ainda destaca diversas vantagens de Hong Kong, entre elas: fluxo livre de capital, a maior concentração de RMB offshore, regime fiscal simples e com baixas taxas de imposto, sistema legal sólido, abundância de talentos e fácil acesso ao resto da Ásia.

Acordos de Dupla Tributação

Hong Kong continua a canalizar a maioria dos investimentos estrangeiros diretos para a China. “Eles passaram de 53% em 2010 para 63% em 2015”, informa Yip. Ela acrescenta que 62% dos investimentos diretos chineses passaram por Hong Kong em 2015.

Hoje em dia, o RMB não é apenas uma moeda para liquidação comercial, mas também para investimento direto e de portfólio, o que contribui para a força de Hong Kong como o maior centro RMB offshore.

Para criar um ambiente mais propício às operações dos centros de tesouraria corporativa (CTCs), Hong Kong modificou seu regime tributário. Atualmente é permitido deduzir despesas de juros ao calcular impostos sobre lucros para financiamentos intra-group. Além disso, segundo Yip, os impostos sobre lucros foram reduzidos pela metade para atividades de tesouraria especificadas (8,25% para CTCs qualificados).

E de quebra, Hong Kong ainda está negociando acordos adicionais de dupla tributação (double taxation agreements, ou DTAs) com outras jurisdições, e alguns desses países já ofereceram taxas menores de imposto retido na fonte.

 

Assista o vídeo - Thomson Reuters Corporate Treasury Solutions - Powering Your Workflow

Fatia de Mercado do CTC

“Desde a crise financeira asiática, Hong Kong progrediu muito em termos de infra-estrutura financeira e estruturas regulatórias”, afirma Jeff Kwan, tesoureiro da MTR Corporation, destacando a recente regulamentação dos CTCs.

“A liquidez de Hong Kong também melhorou significativamente tanto para o HKD quanto para o RMB – sem falar no dólar (USD) –, e pode se manter assim mesmo diante do fim do quantitative easing, à medida que a indústria local de gerenciamento de fundos cresce”, disse Kwan.

 

Como explica, Kwan, a crescente liquidez em Hong Kong e em toda a região para o dólar significa que empresas como a MTR, de Hong Kong, não precisam ir para a Europa ou mesmo Nova York para fazer USD bond deals.

A importância de Hong Kong como centro de tesouraria corporativa (CTC) aumentou conforme o investimento na China cresceu, de acordo com Allen Leung, membro executivo do IACCT e do Treasury Markets Association.

A maioria dos países da região abriu seus mercados e flexibilizou o controle de suas moedas. E, apesar da recente volatilidade ser uma ameaça a essas ações, Leung acredita que os mercados devem permancer abertos. “As multinacionais vão investir em CTCs conforme seus negócios na Ásia forem prosperando”, explica Leung.

Fórum de discussão sobre as estratégias de centralização dos tesouros diante mercados globais em mudança.

Enquanto isso, empresas chinesas que estão expandindo para outros países usarão Hong Kong como local de testes para o controle e o compliance das tesourarias no exterior.

“Após Cingapura ter investido em talentos e em novas regulações, a sua participação no mercado de CTCs cresceu”, observa Raj Melvani. “No entanto, Hong Kong atualmente está tentando obter financiamento do Belt and Road chinês, e tem tomado providências para conquistar mais participação no mercado de CTC”, disse Melvani.

 

Recomendações para a Centralização dos CTCs

O principal desafio para as corporações é identificar o tipo de estrutura correta para seus CTCs. As empresas não devem concentrar-se apenas em incentivos fiscais, mas também em suas necessidades comerciais e nos estágios de desenvolvimento.

Quando uma empresa decide centralizar o CTC, é vital que haja uma política de tesouraria clara. Só assim será possível estabelecer cada etapa para simplificar o sistema finaceiro da cadeia de suprimentos e dos centros de crédito.

“Dez anos atrás, quando o revendedor global DFS transferiu sua sede para Hong Kong, a empresa aderiu a um sistema de tesouraria centralizada”, explica Kenneth Ng, diretor e tesoureiro corporativo do grupo DFS.

“Após agregar as informações do saldo bancário, a DFS centralizou o financiamento e estabeleceu um câmbio único a fim de gerenciar melhor sua exposição cambial”, disse Ng. “Atualmente todo o financiamento é administrado no nível corporativo para que se possa lidar com o risco de exposição cambial, mas o buy-in e a racionalização operacional demoraram alguns anos”, acrescentou.

Aperfeiçoando o Modelo de CTC

Já Jeff Kwan, tesoureiro da MTR Corporation, acredita que a estrutura de investimento de sua empresa não se presta à centralização. Isso porque cada um dos seus projetos estrangeiros tem uma estrutura distinta de fluxo de caixa e diferentes necessidades monetárias, de modo que o financiamento homogêneo não faz sentido.

“O gerenciamento de relações bancárias com diversos bancos –todos com características diferentes – é outro ponto chave para as empresas que procuram um CTC”, lembra Patrick Chan, chefe de desenvolvimento de mercado FX da Ásia do Norte na Thomson Reuters.

Como a provável permanência dos fatores que tem levado à centralização das tesourarias, os tesoureiros corporativos asiáticos deverão certamente aperfeiçoar o modelo de CTC em parceria com reguladores de Hong Kong e de outras regiões para torná-lo ainda mais eficiente e reduzir encargos regulatórios.

 

 

 

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