Investimento em ouro: um porto seguro

Quando se trata de moeda, investidores, governos e até mesmo cidadãos comuns querem algo com o qual possam contar. É por isso que, em tempos de incerteza financeira, quando a aversão ao risco impera, o ouro sempre será uma segurança

A relação do homem com o ouro remonta aos tempos antigos, quando sua beleza, resistência e relativa acessibilidade (principalmente em partes da África) tornaria esse metal um mecanismo perfeito para transações financeiras. E, conforme nossos sistemas monetários evoluíram, o anonimato que o ouro propiciava nas relações de troca fez dele a moeda de escolha para muitos.

Mas, afinal, por que agentes financeiros e governos ao redor do mundo continuam apelando para esse metal quando querem algo seguro?

Bem, pra entender essa questão é preciso estabelecer que há diferentes conceitos de "abrigo seguro". Um deles é o seu papel como garantia contra a inflação. E, se economistas têm repetido nas últimas duas décadas que o ouro perdeu essa função é porque no ocidente, pelo menos, não tem havido lá muita inflação contra a qual se proteger. Já em partes da Ásia, onde temos observado pressões inflacionárias ocasionais e depreciação monetária, o ouro permanece, mais do que nunca, como a principal escolha para combater esses problemas.

 

Observe os dois gráficos abaixo. Eles mostram os preços nominais do ouro comparados ao Consumer Price Index (CPI) anual dos EUA e a cotação real do ouro calculada desde 1968 com base na inflação norte-americana.

A forte elevação do preço para US$850 entre os anos de 1976 e 1980, época em que o mundo presenciou a crise do petróleo, a invasão do Afeganistão e a revolução islâmica iraniana provocou bastante alvoroço. Recebeu menos destaque, entretanto, a alta a níveis recordes ocorrida na crise econômica internacional de 2008. Na origem desses dois saltos, porém, encontram-se razões distintas: inflação e risco geopolítico, no primeiro caso; e risco financeiro e geopolítico, no segundo.

Preço X valor

No caso do ouro, é também importante chamar a atenção para a diferença entre "preço" e "valor". O preço do ouro é tangível, mensurável em qualquer moeda em questão e sempre sujeita às forças do mercado. Já o valor do ouro é muito mais conceitual: está embutido em seu grau de anonimato e de portabilidade para aqueles que escapam de situações de risco, por exemplo. Além disso, sua baixa correlação com praticamente todas as outras classes de ativos, bem como seu papel de salvaguarda contra a inflação, o torna um componente valioso de qualquer portfólio. Ou seja, ao longo do tempo, ele propicia maiores retornos com o mesmo ou menor grau de risco de outros investimentos.

Governos voltam-se para o ouro

O fato de o ouro não ser uma moeda fiduciária (recurso legal declarado pelo governo que não é apoiado por uma mercadoria física) também significa que ele é de grande valor para o sistema bancário.

Um dos melhores exemplos disso foi o caso da Coréia do Sul durante a crise financeira asiática que começou em 1997. A crise havia começado com o colapso do baht tailandês, mas o o problema se espalhou rapidamente, com o índice de endividamento da Coréia do Sul dobrando em pouco tempo e a cotação da moeda despencando. O FMI atuou rapidamente para amenizar os prejuízos, mas o ouro também desempenhou um papel fundamental.

A Coréia do Sul ofereceu à população títulos de dívida denominados em won com cupon em troca de ouro privado, porque a moeda sul-coreana não era bem-vinda no mercado cambial e o governo estava em risco de inadimplência. Ao final, mais de 300 toneladas de sucata de ouro surgiram em resposta ao pedido do governo. A maior parte desse montante veio em forma de jóias, que o governo conseguiu transformar em barras, vender no mercado e com isso arrecadar dólares. Dessa forma, a Coréia do Sul conseguiu pagar os juros da dívida e evitar a inadimplência.

 

Chamariz para contrabandistas

O fato de o ouro ser uma moeda anônima, portátil e que, além de manter seu valor ao longo do tempo, é aceita praticamente em todos os lugares do mundo, o torna objeto de desejo dos contrabandistas e de criminosos que atuam lavando dinheiro.

O contrabando tem sido endêmico no mercado de ouro desde que surgiram as primeiras regulações para o setor. A Índia é um exemplo clássico desse problema. O contrabando sempre foi uma dor de cabeça para o governo indiano, mas em 2013 as importações do país também sofreram com isso conforme o governo procurava maneiras de reduzir seu déficit comercial.

O petróleo é o maior responsável pelo déficit indiano, mas o ouro vem logo em segundo lugar, respondendo por 30% do total. Por isso, em 2013 o governo começou a impor uma série de restrições aos níveis de importação de ouro do país, além de criar ainda outros mecanismos de controle. Um deles era exigir que os empresários separassem 20% do total de suas importações para exportar após agregar valor às mercadorias – transformando-as em jóias simples, por exemplo. Resultado: aumento do contrabando e quase nenhum crescimento na produção de jóias.

O quadro mudou somente em 2014 e, embora a redução da disponibilidade de ouro por meio dos canais oficiais tenha sido parcialmente responsável, outros fatores também tiveram um papel decisivo, como a queda de preço do metal para os investidores, repressão à corrupção e uma crise de liquidez antes das eleições gerais daquele ano.

A Índia não é o único país onde esse tipo de “mercado paralelo” é forte. Parte do declínio na procura pelo ouro chinês no ano passado também deve-se a medidas realizadas pelo governo do gigante asiático contra a corrupção –na qual o comércio ilegal desse metal precioso representa grande parcela. O contrabando de ouro está presente em inúmeros países ao redor do mundo e é improvável que seja eliminado em um futuro próximo.

 

Published on 11 Jul 2017 by Rhona O'Connell

 

 

 

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