Curva de juros aponta primeiros sinais de ansiedade eleitoral

Em evidente demonstração de desconfiança acerca dos possíveis resultados das eleições presidenciais de 2018, mercado de juros futuros no Brasil apresenta curva com inclinação histórica

Mesmo com a bolsa em recordes históricos e o câmbio relativamente estável, os mercados financeiros brasileiros já dão um sinal de alerta para as eleições presidenciais de 2018. Gestores apontam para a elevada inclinação da curva de juros futuros como um sinal de preocupações crescentes com a disputa eleitoral, e apostam que essa ansiedade vai se espalhar para outros ativos.

Nas mesas de operações, o mote é que o candidato vencedor provavelmente manterá a agenda de reformas estruturais, mirando evitar uma crise fiscal e fortalecer a recuperação econômica. Mas investidores no mercado de juros futuros parecem céticos sobre esse cenário otimista, com o diferencial entre as taxas para janeiro de 2023 e 2018 –um termômetro da incerteza de médio prazo –, perto das máximas históricas. "A inclinação da curva de juros indica que o mercado atribui um prêmio ao processo eleitoral. Por que seria diferente nos outros ativos?," perguntaram gestores da Vista Capital em carta mensal a investidores.

 

Compare abaixo a diferença entre as taxas do mercado de juros futuros de 2018 e de 2023:

Horizonte nebuloso

Expectativas de que a recuperação econômica impulsione os lucros das empresas levaram o Ibovespa a novos recordes neste mês (veja tabela abaixo, com a trajetória da bolsa paulista nos últimos 3 meses). 
E o dólar, por sua vez, vem oscilando entre 3,10 e 3,25 reais desde meados de julho, apoiado também em alguma confiança sobre o programa proposto pelo presidente Michel Temer. 

Mas escândalos de corrupção e o desemprego elevado, no entanto, vêm gerando ressentimento sobre a classe política brasileira, levantando a possibilidade de um candidato anti-establishment, ou que se opõe às reformas, emergir vitorioso no ano que vem.

A eleição ainda está relativamente distante e, neste momento, pesquisas não costumam gerar previsões muito precisas. Ainda assim, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem criticado fortemente a austeridade, vem liderando os levantamentos de intenção de voto (leia mais aqui). Sua campanha pode ser barrada se sua condenação por corrupção for confirmada por um tribunal de segunda instância. As pesquisas sugerem que, nesse cenário, parte de seu apoio passaria a Ciro Gomes, outro crítico do programa de Temer.

O deputado ultradireitista Jair Bolsonaro, cujas declarações sobre política econômica vêm apontando em direções contrastantes, também vem mostrando bom desempenho nas pesquisas. Ele já questionou o uso de juros para controlar a inflação e defendeu a política desenvolvimentista do regime militar, mas recentemente deu alguns passos na direção do empresariado (leia mais aqui).

Enquanto isso, o apoio a agendas mais favoráveis ao mercado vem se dividindo entre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o prefeito de São Paulo, João Dória, e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (leia mais aqui).

Com um campo tão fragmentado, é difícil prever o resultado de um provável segundo turno.

Nervosismo no campo político

A incerteza no Brasil soma-se aos questionamentos políticos que devem varrer a América Latina no ano que vem, quando eleições no México e na Colômbia devem testar a recente guinada da região em direção à ortodoxia econômica.

A inclinação da curva de juros do Brasil pode ser a primeira evidência do nervosismo dos investidores sobre esses riscos políticos.

Embora a redução da taxa básica de juros – que soma 6 pontos percentuais desde outubro e deve levar a Selic à mínima histórica (veja tabela abaixo) – possa explicar parte da inclinação, o movimento é forte demais para refletir apenas a política monetária.
Confira na tabela a redução da taxa básica de juros no Brasil, num ciclo que teve início há um ano, quando a Selic estava em 14,25%. Nesta semana, o BC desacelerou o passo e reduziu a taxa em 0,75 ponto percentual, a 7,5% ao ano, deixando a porta aberta para novos e menos intensos cortes à frente. Nas quatro reuniões anteriores, havia optado por cortes de 1 ponto. 
Os juros de longo prazo são consistentes com apostas de que o Banco Central eleve os juros a até 11 por cento em 2021, de acordo com cálculos de gestores da Flag Asset Management, bem acima da projeção de 8 por cento no Focus, pesquisa do BC com economistas. Além disso, indicações recentes de que o BC pode desacelerar o corte de juros não chegaram a reduzir a inclinação da curva, como se esperaria.

Ativos locais em jogo

Gestores dizem que a alta dos juros de longo prazo também reflete temores de que Temer não será capaz de implementar reformas prometidas até as eleições, particularmente a da Previdência.

Alguns esperam que o câmbio e as ações logo passem a deteriorar, alinhando-se com o mercado de juros.

Outros esperam que os juros de longo prazo recuem à medida que a incerteza política se assenta.

A gestora de fundos Vintage Investimentos aposta no meio-termo e combinou posições que se beneficiam de uma inclinação menor da curva de juros com investimentos em NTN-Bs.

Em carta mensal a investidores, gestores da Vintage reconheceram que os riscos fiscais e eleitorais devem se traduzir em juros de longo-prazo elevados, mas disseram que os níveis atuais são "excessivos".

O economista do ING Gustavo Rangel disse que operações como essa devem se tornar cada vez mais comuns conforme as eleições se aproximam, mas deve demorar para os preços incorporarem a incerteza definitivamente.

"O ruído eleitoral vai afetar os ativos locais no ano que vem, mas o risco político não será precificado até o fim do primeiro trimestre", escreveu Rangel em relatório.

 

 

 

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